
SINOPSE
Restaram três seres humanos e a ossamenta de um cavalo. O planeta tornou-se plástico.
Entre os resíduos de um mundo extinto, respiram, vestem-se, alimentam-se e inventam modos de continuar existindo. O plástico, matéria que acelerou a devastação, converte-se também na única condição possível de sobrevivência. Enquanto criam pequenas ficções para adiar o fim, recolhem fragmentos de memória de uma civilização que transformou o petróleo em progresso, a guerra em rotina e a morte em paisagem.
À procura de cavalos — ou daquilo que eles ainda podem significar — atravessam ruínas, ausências e lembranças. Talvez busquem um animal. Talvez procurem uma forma de reconectar-se com a vida. Talvez esperem apenas um milagre.
Entre o colapso e a invenção, Cavalo de Teatro atravessa as ruínas do Petroceno para perguntar o que ainda pode sobreviver quando a memória, a arte e a imaginação são as últimas formas de vida.
Onde estão os Cavalos?
Ouvimos cavalos antes de vê-los.
Galopam dentro da memória,
onde ainda existe terra,
antes que tudo se tornasse petróleo,
plástico,
silêncio.
Uma distopia impulsiona uma utopia.
Três seres humanos permanecem.
Muito plástico.
Petróleo.
Ferraduras.
A ossamenta de um cavalo.
O resto é ausência.
Habitamos um museu em movimento,
onde a História ainda respira
e a presença insiste em não desaparecer.
Onde estão os cavalos?
Eles mediavam distâncias.
Puxavam o mundo.
Transportavam corpos,
sonhos,
alimentos,
guerras
esperanças.
Levavam os vivos.
Acompanhavam os mortos.
Conheciam os caminhos entre o aqui e o além.
Agora restam apenas seus vestígios,
como se o próprio movimento tivesse sido extinto.
Procuramos cavalos.
Talvez procuremos outra forma de caminhar.
Talvez procuremos uma memória
anterior ao plástico
Talvez procuremos um tempo
em que o petróleo ainda dormia sob a terra.
Talvez procuremos um corpo capaz de nos reconciliar
com aquilo que destruímos.
Restou um desejo.
Um achado.
Um mapa.
Ou apenas a arte.
Porque toda obra nasce quando alguém decide
escavar ruínas
à procura de vida.
Onde estão os cavalos?
Talvez continuem galopando
dentro daquilo que ainda somos capazes de imaginar.

"O caos da linguagem representa o caos repentino da existência humana, a existência deles num mesmo espaço-tempo. A desordem como sinal prévio da demolição, do colapso ao vazio. Neste ponto, restauramos esse vazio. O vazio como um valor e não como uma perda. O vazio, na arte de hoje, corresponde ao espaço da criação, a desautomatização da linguagem e o surgimento da nova obra".
Luis Alonso-Aude
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